quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Sinceridade

Luíza sempre disse que o que mais admirava em um homem era a sinceridade. Se o homem não fosse sincero e verdadeiro, ele definitivamente não prestava para ter um relacionamento com ela. Nem um beijo. Não queria correr o risco de rolar um beijo falso, ela queria um beijo sincero.
- Lu, não existe homem que não minta.
- Então eu vou passar o resto da vida sozinha.
- Sim, tu vai.
- Para Lê, eu vou achar um homem que não minta pra mim.
- Tu já pensou que às vezes é bom ouvir uma mentira?
- De onde isso? Mentiras não servem para nada.
- Quando tu acordar com bafo vai querer que ele fale?
- Claro, sempre prefiro a verdade.
- Queria ser como esse homem que tu imagina, porque tá foda.
- Quê?
(*)
- Jorge, promete que nunca vai mentir pra mim?
- Prometo.
- Mesmo?
- Mesmo.
- Olha, Jorge, eu juro pelo meu cabelo, que por um acaso tá lindo né? Que tudo termina se tu mentir pra mim. Jura?
- Juro.
- Que bom, Jorge.
- Mas falando no teu cabelo...
- Que tem ele?
- Tu disse que ele tava lindo né? Então...
(*)
Ela não esperava que aqueles três meses de sinceridade, na real se tornariam um inferno para seus ouvidos. Ela ficava com medo de fazer qualquer pergunta para o Jorge pois corria o risco de ouvir algo que não lhe agradasse. Quando perguntou se estava bonita pra ir na festa ouviu um doloroso 'Não'. Perguntou se tinha gostado dos ravioles, ouviu um 'É, os da minha ex eram melhores'. Quando saíram do cinema, ela toda eufórica dizendo que tinha adorado assistir 'A Casa de Cera', perguntou se ele tinha gostado e ouviu um 'Preferia um chute no saco'.
Ela acabou ficando desanimada e pensando se não seria melhor que ele mentisse para ela, mas logo mudou de ideia e viu que se ele mentisse uma vez, poderia mentir outra, poderia arrumar uma amante e dizer que estava indo visitar velhinhos no asilo. Poderia começar a dizer que gostava do tempero na salada, acabar se tornando infeliz e trocando ela por uma vegana que saberia muito bem a dose de vinagre. Não poderia correr esse risco.
(*)
Os dois estavam em frente a TV assistindo Palmeiras x Mogi Mirim quando ela começou a seção de perguntas:
- Jorge, tu me ama?
- Claro que amo, amor.
- Mesmo?
- Claro, sabe que eu não minto pra ti.
- Então agora tu vai me dizer uma verdade, ok?
- Claro, a verdade sempre.
- Tu ama mais a mim ou ao Palmeiras?
- Hmmm, depende.
- Depende do que, Jorge?
- Bom, é que na época do Paulo Nunes é bem provável...
Luíza foi possuída pela fúria, levantou-se, foi em direção a TV e ficou ao lado dela. Olhou para Jorge com os olhos flamejantes e perguntou aos berros:
- Jorge, tu prefere eu ou o futebol?
- Claro que tu, amor.
Ela saiu de casa aos prantos.
Já poderia imaginar que, mais cedo ou mais tarde, uma mentira sairia. Mas não imaginou uma tão dissimulada.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Efeito Forlán

- Fernanda, a gente precisa conversar.
- Diga, mor.
- Tu lembra quando o Iarley foi embora do Inter?
- Lembro.
- Bom, foi emocionante. Lembro que eu fiquei triste e aquela imagem dele chorando na coletiva é inesquecível, mas nós sabemos que o time tem que ter mudanças, não pode se basear apenas nos resultados antigos, não se pode pensar só naquele jogo contra o Barça.
- É verdade, o time precisava dar uma renovada.
- Exatamente. Lembra quando o Ronaldinho não foi pra copa?
- Lembro.
- Aí é um grande exemplo de como as coisas precisam de respostas. Ele já não estava rendendo o que podia.
- Verdade, nem um pouco parecido com o que era no passado, dava show e tal.
- É, e não precisávamos de alguém que fosse só história. Ele mudou demais do que era no começo, já não servia.
- Sim, quando não dá mais, não adianta insistir, mor.
- E o Romário, até ele não foi pra copa, parece um absurdo pensar assim né?
- É, mas o que isso tudo significa?
- Então, tu concorda que não da pra insistir numa coisa que não rende mais nada, certo?
- Certo!
- Não importa quem é, pode ser Romário, Ronaldinho, Forlán,
Felipão, Luxemburgo, Fernandão... Se os resultados esperados não são obtidos, tu concorda que temos que liberar esses jogadores para outros times, certo?
- Hmm, certo.
- Bom, baseado nos resultados obtidos no nosso relacionamento ultimamente, visto que o rendimento não é mais o mesmo, é totalmente abaixo do esperado, vivemos apenas de lembranças de um tempo bom, eu estou te liberando para acertar com outro time.
- O quê?
- Cabô, Fê!